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Igreja da Misericórdia ao presente

Ainda que seja um dos mais antigos edifícios que existem actualmente em Vila Real, este monumento nunca mereceu uma análise pormenorizada da sua estrutura, como se apresenta hoje aos vila-realenses e a todos aqueles que a visitam.

O edifício ocupa um pequeno quarteirão, de estrutura trapezóide, entre as duas ruas da Misericórdia e a travessa da Misericórdia.

O frontispício, de aparelho isódomo (aparelho usado em todo o edifício, com algumas zonas de pseudo-isódomo), divide-se horizontalmente em três registos. O primeiro, de maior altura, contém hoje unicamente a porta, devido ao desaparecimento, como vimos, das duas janelas do coro, de vão quadrangular, como resultado das obras feitas nos finais da centúria passada.

A porta é constituída por ombreiras desniveladas no sentido do vão, unidas superiormente por uma imposta constituída por molduras. No ângulo do desnivelamento das ombreiras um elemento que mal define um colunelo, apresenta, pela estrutura da base, reminiscências manuelinas, e pela pequena cabeça que o remata, uma influência renascentista, já que lembra um tema usado no ábaco de alguns capitéis do Renascimento. Assenta na imposta um arco pleno com rebaixamento no intradorso. Um cimácio (ou ducina) separa o primeiro do segundo registo do frontispício, que é constituído por um falso frontão interrompido por uma moldura rectilínea ligeiramente elevada (pseudo frontão poligonal).

Lateralmente, dois acrotérios servem de base a pináculos (assentes em pedestais decorados) e no tímpano inscreve-se um nicho formado por pilastras e arco abatido. A forma dos capitéis toscanos das pilastras vai ter continuidade na concavidade do nicho, tendo uma decoração vegetalista na parte superior. No nicho está colocada a imagem de Nossa Senhora da Conceição, por trás da qual existe um pequeno vão, visível só da parte interior. Este conjunto é rematado pelo terceiro registo da fachada, um campanário, cuja estrutura é formada por dois pilares que sustentam um falso frontão triangular, abrindo-se a sineira na parte central, onde se encontra um sino, que não aparece em fotografias antigas. O campanário rematado por uma cruz de tipologia vegetalista (pequenos troncos entrelaçados) está ladeado de duas aves.

A parede virada a Este apresenta uma porta, de arco pleno, isenta de decoração, e vãos para iluminação da igreja, sacristia e dependências que se encontram nesse lado do edifício. A existência de um campanário (assente num plinto e encimado por um elegante remate ondulado) e de um nicho de ângulo com a imagem de Nossa Senhora coroada, constituem os elementos a distinguir neste lado do edifício.

A parede do lado Oeste, que corresponde na totalidade à igreja, é rasgada também por vãos: uma porta de grande singeleza, que dá acesso directo ao interior da igreja, duas grandes janelas (uma das quais por cima da porta) e duas frestas de tamanho desigual, estando a de menor vão junto à fachada principal. Esta parede, como a sua congénere, termina a Norte com um nicho de canto onde se encontra a imagem de Santa Bárbara.

A parede Norte, que corresponde à cabeceira da igreja e à parede da sacristia e casa do despacho, é de uma grande austeridade, sem qualquer abertura nem elemento decorativo, demarcando-se a área da igreja pelo acentuado da empena, em contraste com a área da sacristia e casa do despacho.

Como referimos anteriormente estas fachadas eram caiadas de branco, com áreas de maior policromia (nos poucos elementos decorativos apontados) nas imagens que eram pintadas e douradas, como referenciamos para 1862, altura em que só se faz referência às imagens de Nossa Senhora da Conceição (na fachada) e de Santa Bárbara, o que nos pode permitir pensar que a outra imagem foi colocada posteriormente. As três esculturas exteriores, ainda que de interesse iconográfico, apresentam por parte de quem as executou uma limitação plástica.

Perante a discrição exterior da igreja, uma questão se levanta. Onde inseri-la nos estilos que temos na arquitectura portuguesa do século XVI? Edificada entre 1528 e 1538/48 (1548 é a data inscrita numa pedra que faz parte da ombreira direita da porta), com alguns acrescentos posteriores, é forçoso colocá-la dentro do maneirismo. Esta classificação, como acontece frequentemente em Portugal, merece alguns reparos, já que estamos perante um edifício cujo autor ainda não se desligou totalmente do passado manuelino (bases da porta principal e remate do campanário), nem dos primeiros sintomas do Renascimento em Portugal (arco pleno e pequena cabeça que referimos).

Quem riscou a igreja, dentro de uma prática corrente na época, devido à sua formação ou à vontade de quem encomendou, ou como resultado das duas atitudes, manteve-se fiel a uma linguagem que, embora nova, não consegue libertar-se de modelos passados. Queremos salientar a expressão contida no projecto (formal e decorativa), que coloca o edifício numa linha da tradição portuguesa, que aflora por vezes as correntes formais do tempo, às quais se aliam as formas adquiridas no passado, mas utilizando ambas com moderação e despojamento.

Interiormente é uma igreja de uma só nave, sem definição de capela-mor, a não ser pela diferença de altura (três degraus) entre a nave e o supedâneo do altar-mor, na parede do qual se rasgam três arcos de volta plena, decorados com pequenos caixotões no intradorso, sendo o central mais elevado do que os laterais (esquema inspirado no motivo de Serlio). Estes três arcos deveriam ter contido três retábulos, possivelmente maneiristas, que a alteração do gosto, levou ao seu desaparecimento.

Hoje, o retábulo mor de gosto ecléctico, onde se associam formas do tardobarroco com lembranças do neoclássico (quatro colunas de capitéis coríntios e fuste decorado no primeiro terço com anel de decoração vegetalista dupla e invertida; entablamento de acentuado movimento, sobrepujado de urnas e remate de linhas ondulantes e decoração pujante, de onde sobressai um fecho de plumas, que contrastam com a elegância contida da restante decoração) é enquadrado pelos dois arcos laterais onde se colocaram do lado do Evangelho, o Senhor da Cana Verde, e do lado da Epístola, o Senhor preso à coluna, locais anteriormente ocupados por dois retábulos: o primeiro, do Senhor dos Passos; e o segundo, da Senhora das Dores.

Primitivamente, do lado da Epístola, ficava o retábulo (ou capela) do Ecce Homo, lateral ao retábulo mor, que pertencia, a partir de 1599, a Gonçalo Lobo Tavares, alcaide-mor de Lamas de Orelhão e, do lado do Evangelho, ficava o retábulo (ou capela) da invocação de Nossa Senhora da Coroa que, a partir de 1598, era de Fernão Pinto Pimentel e sua mulher. No supedâneo, enquadram lateralmente a actual cabeceira dois anjos tocheiros.

A nave, que mantém no pavimento as sepulturas (de esquadria de granito e taburnos) numeradas, e está dividida por um gradeamento de ferro, colocado em 1889, apresenta ao longo das suas paredes um alizar de azulejo do século XVII, de padrões tapete e maçaroca que, como tivemos ocasião de referir, foram colocados nos finais de seiscentos. Na parede do lado do Evangelho, com uma porta de acesso à rua e vãos de iluminação, temos, depois das obras dos finais do século XX, no local onde se encontrava um retábulo, uma estrutura rematada por um arco enquadra a imagem do Senhor dos Passos, seguindo-se o retábulo (policromado e de linguagem decorativa de gosto rococó) de Nossa Senhora da Conceição, também hoje conhecido por altar de Nossa Senhora da Misericórdia. Entre este e a área da capela-mor, encontra-se o púlpito com a sua escada de acesso.

Do lado da Epístola, também no lugar onde existia um retábulo, uma estrutura maneirista, rematada por um pequeno frontão formado por aletas, e onde se distingue a decoração esculpida do plinto e as pinturas do intradorso do arco, enquadra as imagens de Nossa Senhora das Dores (Nossa Senhora da Soledade) e de Cristo morto (Senhor do Túmulo). No seguimento da porta que nos conduz às dependências laterais, temos o retábulo de Nossa Senhora do Carmo, em tudo idêntico ao que lhe fica em frente. Nesta parede do lado da Epístola, depois do retábulo, abre-se a porta pela qual acedemos a uma ante sacristia e desta à sacristia e, na parte superior, como sucede em algumas igrejas da Santa Casa da Misericórdia, temos uma tribuna, ritmada por colunas, destinada à Mesa.

Na sacristia, de pequenas dimensões, é de realçar o tecto de caixotões de madeira trabalhada com a parte central pintada com elementos vegetalistas. Num dos caixotões a pintura contempla as armas reais e uma cartela. Esta tipologia de tecto, tão comum na arte portuguesa dos séculos XVII e XVIII, e frequente em muitos edifícios de Vila Real e seu termo, poderia ter existido, segundo a nossa opinião, numa fase da história decorativa da igreja. Através da tribuna, à qual se acede por uma escada temos uma sala, hoje de arrecadação, mas que desempenhou a função de casa do despacho onde, durante séculos, os Membros da Mesa traçaram o destino da Santa Casa da Misericórdia de Vila Real.

 

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