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Promotores e Benfeitores

A Santa Casa da Misericórdia de Vila Real, como principal promotora da construção do Hospital, ao longo do século XIX, tomou as iniciativas necessárias para a concretização de um projecto que diríamos audacioso para a dimensão da Instituição. Entre as diversas iniciativas tomadas para a construção do hospital, deve salientar-se o empenho dos benfeitores que, desde os primeiros tempos da sua fundação, vão dar o apoio essencial para a sua concretização.

Como sucede com outras situações relacionadas com o historial da Santa Casa da Misericórdia de Vila Real, também sobre as diversas fases do Hospital da Divina Providência temos alguns casos onde não existe uma informação completa. O autor do relato da fundação e dos primeiros anos da vida do hospital (1827) refere essa mesma situação em relação aos benfeitores. Assim informa-nos que “começaram a ter muitos benfeitores, mas a falta de apontamentos, e certo desleixo que tem havido na organização dos títulos e algumas vezes na administração do hospital, será a origem de não se poder formar uma exacta relação”.

A primeira figura a realçar é Francisco da Silveira Pinto da Fonseca Teixeira (1763-1821), 1.º conde de Amarante. Militar distinto durante a campanha da Guerra Peninsular, foi comandante das armas de Trás-os-Montes, e nesta função “prestou relevantes serviços ao Hospital da Providência, cujo edifício mandou construir”. Sobre a relação entre o 1.º conde de Amarante e o novo hospital escreveu-se que aquele merece uma menção particular já que, “em 1817, governando então as Armas da Província, concebeu o projecto de dar princípio a um novo edifício que, sendo construído debaixo de preceitos médicos e organizado com todas as casas e oficinas em harmonia com o fim para que era destinado, nele se pudessem tratar com regularidade os doentes nele admitidos”.

Não havendo porém fundos com que se realizasse aquele projecto, Francisco da Silveira Pinto da Fonseca Teixeira recorreu aos habitantes da província para que com suas “esmolas concorressem para aquele novo edifício, tendo a satisfação de ver confirmadas as suas esperanças, porque de toda a parte afluem esmolas, com que se deu princípio ao novo edifício do Hospital, conseguindo-se construir a maior parte das duas enfermarias do lado nascente”.

Foi também por interferência do 1.º conde de Amarante que o arcebispo de Braga, frei Miguel da Madre de Deus, não só contribuiu, com a sua esmola para as obras do novo Hospital, como também passou a “atestação para se impetrar a Bula Pontifícia, a fim de se suprimir, pela morte do beneficiado o reverendo António Nunes de Figueiredo, o benefício de Santas Engrácias da vila de Canelas” (1817), aplicando-se o seu rendimento para curativo dos pobres admitidos no Hospital. As acções do 1.º conde de Amarante e do arcebispo de Braga em relação do Hospital fazem com que o seu memorialista dê ao primeiro o “título de protector do Hospital da Divina Providência e considere o segundo como um grande benfeitor do Hospital”.

Se o 1.º conde de Amarante e o arcebispo de Braga são personagens de realce para o arranque do Hospital, nada teria sido concretizado da forma como foi sem o contributo dos irmãos Francisco e José Rodrigues de Freitas, que, em 1820, sendo proprietários de uma avultada herança, doaram todos os seus bens de raiz móveis e imóveis que se achavam nas suas quintas de Alvações de Corgo e de Vila Alva, assim como as suas casas do Cano Velho.

Na lista de benfeitores sobressaíram também, pelas suas doações, Luís de Sousa Vilela e sua mulher Mariana Margarida, de Vila Real, e as irmãs Rocha, Ana Eufrásia da Rocha e Francisca Teresa Margarida da Rocha, também de Vila Real. Para além dos benfeitores referidos muitos outros deram contributos significativos para o novo hospital, e vários donativos foram sendo atraídos pelo Hospital, à medida que a sua função assistencial se consolidou.

Vem a talhe de foice lembrar que a Misericórdia, através do retrato, procurou manter a memória dos benfeitores que permitiram a concretização do novo Hospital. Esta prática, da qual não temos notícia antes, tornou-se frequente na Santa Casa da Misericórdia de Vila Real, ao longo do século XIX, e continuará no seguinte, passando o retrato de diversos benfeitores a fazer parte dos inventários do seu espólio móvel.

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