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Património e gestão financeira

 

Criado de raiz, o Hospital da Divina Providência teve, naturalmente, nos seus primeiros tempos, vida difícil. Através do livro da sua receita e despesa, iniciado em 14 de Março de 1796, verifica-se que as primeiras verbas de que dispôs eram provenientes de esmolas concedidas pelos irmãos da Misericórdia e por devotos, de peditórios feitos na vila, e muito excepcionalmente, de espectáculos ou até de récitas.

Em poucos anos, contudo, os proventos das esmolas e peditórios vão dar lugar, sobretudo, às receitas dos juros a dinheiro provenientes de donativos ou de bens de raiz concedidos ao Hospital e logo vendidos.

No ano económico de 1821-1822, a receita foi de 799 776 réis, da qual 365 416 réis (45,7% do total) provenientes de dinheiro a juros, e 84 650 réis (10,6% do total) do arrendamento de casas. O fundo do Hospital, que em 2 de Julho de 1822 atingiu os 12 589 961 réis, encontrava-se "todo a juros".

A estrutura das receitas do Hospital revela, assim, uma faceta moderna, que já nada tem a ver com as receitas tradicionais da Misericórdia que o fundou, assente não mais em foros e pensões, mas em bens próprios e juros provenientes dos empréstimos a dinheiro. A despesa, no mesmo ano económico de 1821-1822, chegou aos 703 525 réis, dos quais, 573 000 réis (81,4% do total) diziam respeito à alimentação dos doentes, salários de pessoal, materiais utlizados e botica.

A partir da década de 1860, no capítulo da receita, verificamos que o próprio Hospital vai passar a ter um peso relativo não negligenciável, proveniente das verbas obtidas com a venda de medicamentos na sua farmácia e com os pacientes que dispunham de recursos económicos para pagarem o seu internamento, tratamento e cirurgia quando necessário.

A estrutura da despesa, no século XX, manteve-se praticamente a mesma – vencimentos com o pessoal, nomeadamente com os médicos, religiosas franciscanas, enfermeiros, etc.; e abastecimento de produtos alimentares destinados aos doentes.

Mas, no domínio da receita, além dos rendimentos próprios – propriedades urbanas, títulos de renda perpétua, os tradicionais juros de inscrições, obrigações ou capitais mutuados ou em depósito e os donativos – e dos montantes recebidos das Câmaras da região de Vila Real pelo tratamento de pobres dos respectivos municípios, verificamos uma progressiva importância de dotações e subsídios, pela prestação de serviços, de organismos do Estado – primeiramente, da Direcção Geral de Assistência; mais tarde, da Caixa Geral de Previdência, da Assistência na Doença aos Servidores do Estado (ADSE), do Serviço Nacional de Emprego, da Direcção Geral dos Hospitais –, e da Junta Provincial, enquanto existiu. Cresceram também as receitas obtidas com os medicamentos vendidos pela farmácia do Hospital, com os tratamentos hospitalares, exames médicos, internamentos de pessoas que, através das companhias de seguros ou directamente, pagavam os dias de "pensão" ou as diárias – 6 escudos em 1930, 15 escudos em 1950 –, com as intervenções cirúrgicas efectuadas e as consultas externas.

O Hospital tornou-se, assim, rentável, de tal forma que os saldos positivos no final do ano passaram a ser uma constante: 592 contos em 1930, 132 contos em 1947, 266 contos em 1948, e em 1973 ultrapassou os 3 866 contos. Em suma, o Hospital da Divina Providência, praticamente desde a sua origem, acabou por se transformar no instrumento fundamental do equilíbrio financeiro da Santa Casa de Vila Real.

 

 

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